crime e sexo

A cultura tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural. Mas, por uma perspectiva biológica, não existe nada que não seja natural. Tudo o que é possível é, por definição, também natural. Um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir, portanto, não necessitaria de proibição. Nenhuma cultura jamais se deu ao trabalho de proibir que os homens realizassem fotossíntese, que as mulheres corressem mais rápido do que a velocidade da luz, ou que elétrons com carga negativa atraíssem uns aos outros (HARARI, 2015, p. 133-134).

Compreendem isso? Estou iniciando o texto com a citação acima, para que possamos discutir um pouco sobre a questão da homossexualidade. Sim, na noite do último dia 25, o ambulante Luiz Carlos Ruas foi espancado e morto por dois homens, após ter defendido dois homossexuais¹. A notícia mexeu com humores e suscitou, inclusive, acaloradas defesas ao estado de direito e contra a atitude de uma turba raivosa que queria mesmo é linchar os dois assassinos – mas isso é outra conversa. O fato é que, após mais uma violência movida por um motivo relacionado ao ódio contra pessoas que fazem sexo com pessoas do mesmo sexo, achamos interessante apresentar uma perspectiva biológica e evolutiva para a questão.

Vamos voltar para a citação. Em Sapiens, uma breve história da humanidade, Harari afirma que a cultura “tende a argumentar que proíbe apenas o que não é natural”. na verdade, o autor se refere às duas noções, natural e não natural, como de criação da teologia cristã. O que isso significa? Significa que natural seria apenas aquilo que se encaixa nos desejos e intenções de Deus. Tudo aquilo que foge às suas determinações não é natural, mas uma afronta a seus desígnios. Falando especificamente sobre o homossexualismo, Deus teria criado os corpos masculinos e femininos para que os respectivos e característicos órgãos sexuais servissem de uma maneira específica. Assim, caso um pênis fosse introduzido em um outro ser com um pênis, isso seria algo não natural, fora dos desígnios e da vontade do Criador. Um afronta, um pecado, um erro.

Ora, o fato é, partindo do argumento que afirma, “tudo o que é possível é, por definição, também natural” e também, “um comportamento verdadeiramente não natural, que vá contra as leis da natureza, simplesmente não teria como existir, portanto, não necessitaria de proibição”, é de fato uma perspectiva que coloca em cheque a dicotomia entre natural e não natural e questiona sobre os motivos que levam pessoas a punirem – por leis ou não – homossexuais ou quem os defenda (como ocorrido há uma semana).

Do ponto de vista biológico o que existem são seres masculinos e femininos ou machos e fêmeas; do ponto de vista cultural, o que temos são homens e mulheres. Homens e mulheres são gêneros que obedecem a valores e modos de vida, cada qual ocupa um lugar específico nas diversas culturas ou nos diversos conjuntos de ficções criadas por cada grupo com a finalidade de estabelecer formas de cooperação e manutenção de seus membros.

Da mesma maneira, a forma como cada um de nós deve ou não utilizar seu órgão sexual também acaba obedecendo aos ditames culturais. No entanto, do ponto de vista biológico, não há qualquer impedimento cultural que faça com que as coisas aconteçam ou não. Se existe na natureza ou se é possível que seja feito, isso já é natural. Por isso, para que homens não realizem fotossíntese, mulheres não corram mais rápido do que a velocidade da luz ou elétrons com carga negativa atraiam uns aos outros, não há necessidade de qualquer proibição, livro sagrado ou legislação que estabeleça a necessidade de tais fatos.

Desse modo, de um ponto de vista natural e evolutivo, os órgãos não obedecem a finalidades absolutas. Assim, se utilizo minha boca para comer, beijar ou morder alguém que me ataca, não há qualquer regra que determine que apenas posso utilizá-la para essas três coisas. Aliás, o beijo sempre existiu? Se não, como surgiu o beijo? Qual teria sido o primeiro sapiens a beijar outro sapiens? Seriam necessariamente do mesmo sexo? O fato é que, como afirma Harari, “os órgãos evoluem para executar uma função específica, mas, depois que existem, podem ser adaptados para outros usos também” (p. 134).

beijo

Os órgãos sexuais e seus usos não fogem a esta observação. Harari comenta, sobre alguns usos distintos desses tão culturalmente controlados órgãos:

O sexo evoluiu, a princípio, para procriação e rituais de galanteio, como uma forma de avaliar a adequação de um possível parceiro. Mas muitos animais atualmente fazem uso delas para uma série de propósitos sociais que pouco tem a ver com a criação de pequenas cópias de si mesmos. Os chimpanzés, por exemplo, utilizam o sexo para afirmar alianças políticas, criar intimidade e neutralizar tensões. Isso é antinatural? (p. 135)

Assim, na natureza o sexo não é necessariamente feito com finalidades reprodutivas e nem mesmo precisa ocorrer entre seres do mesmo sexo. O que existe é o surgimento de ficções, a criação de narrativas e o estabelecimento de hábitos que ordenam uma vida em grupo. Vejo um problema quando tais narrativas acabam tomando o lugar da natureza, quando instalam-se como fossem o espelho de verdades ou essências acerca dos fatos naturais, não reconhecendo seu estatuto ficcional. O que isso quer dizer? Cultura, valores, verdades são criações e não devem extrapolar aquilo que se encontra no campo do natural, daquilo que existe, daquilo que é porque é.

Quando um homossexual ou alguém que o defende é morto simplesmente por ser ou defender quem é, temos um exemplo de como esta ou aquela narrativa não cumpre seu papel de auxiliar na convivência e cooperação entre alguns membros do grupo. Não estou afirmando que os assassinos em questão sejam movidos por narrativas religiosas, mas é fato que, em algum grau, naturalizaram algum discurso que estabelece funções específicas para este ou aquele órgão sexual. No limite, são crentes de suas ficções, como qualquer um, mas acabam extrapolando a função de uma ficção.

O ponto de vista natural e evolutivo nos auxilia a pensar no quanto nossas ficções podem sair do controle. Não há assassinato certo ou errado, do ponto de vista biológico. No entanto, o assassinato de Luiz Carlos Ruas não foi movido pela natureza, mas pela cultura. Assim, cabe à cultura julgar e perceber, de que forma as crenças passaram de um limite que passa pela conservação e expansão da espécie. Sendo assim, me parece que os homossexuais, por defenderem narrativas de respeito e convivência plural, terão muito mais chance de vencerem a luta evolutiva.

Num futuro próximo teremos mais homossexuais dominando as narrativas do grupo? Impossível saber, mas desconfio que as chances são grandes.

Nota:

1.“Ele só tentou me defender”, diz homossexual sobre ambulante morto no Metrô.

Referência:

HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo: L&PM, 2015.

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